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História

Ritu, Usha e Sanguita

Ritu fala mal Inglês, mas desenrasca-se a comunicar quando é mesmo necessário. Enquanto caminha, arrasta as mãos e as costas pelas paredes, a cantarolar. Nos dias em que os seus irmãos e irmãs de coração ainda estão na escola, a Ritu gosta de brincar sozinha e fazer montinhos na terra, enquanto fala consigo mesma. Ajuda Seema (a tia emprestada) a lavar a roupa no poço e alinha em qualquer tarefa. Quando, finalmente, toda a gente chega da escola, ela facilmente se integra nas brincadeiras e não deixa que ninguém seja injusto com ela. É bastante emotiva e sensível. Se perder, fica triste. Se ganhar, pula de felicidade.

A Ritu passou aproximadamente três horas comigo a tentar escrever uma palavra em Inglês: quadrilateral. O curioso não são as letras nem a palavra em si, mas sim a concentração e a memória. A Ritu gosta bastante de se rir, leva tudo para a brincadeira, mas quando chega a hora de trabalhar tem uma certa dificuldade em se focar no que está a fazer. Longas foram as páginas onde ela escreveu a palavra “quadrilateral”, linha após linha. Sempre com um olho na palavra de cima, claro. Quando chegava a vez de o fazer sozinha, aí sim, estava o problema. Talvez eu também tenha um certo peso de culpa, por alinhar nas brincadeiras dela, ou por me deixar levar pelos seus risos contagiantes.

Usha é extremamente independente, sempre com cabeça erguida e um exemplo para o resto das suas irmãs. Faz tudo à sua maneira, raramente alinha em parvoeiras e, quando ergue a voz, todos os seus irmãos seguem as suas palavras. Quando, sem ninguém saber, ela e o resto da matilha se apoderam da televisão, é ela que faz questão de meter no canal dos filmes de Bollywood, preferencialmente filmes de ação. Quando é para ir roubar sementes a meio da tarde, é também ela que lidera. Sim, sementes e água dentro de um copo, o aperitivo preferido deles para verem Bollywood.

Sanguita foi provavelmente a criança com quem mais tive dificuldade em me aproximar. Por trás da sua face adulta está uma menina muito sensível e com vontade de brincar. Estive sempre debaixo de olho dela, isto é, tentava não interagir comigo nas brincadeiras, mas permanecia por perto, sempre com um olho atento. Se eu olhasse para ela, rapidamente desviava a sua atenção. Quando a convidava para brincar, desculpava-se com outra tarefa que tinha que atender. Sanguita ou estava intrigada com a minha presença ou tinha uma paixoneta. Lamento não poder ter conseguido chegar a ela como devia, caso contrário teria evitado o que para ela foi um mar de incompreensão. Quando no final da minha jornada me fui despedir de todos, fechou-se no quarto. Bati à porta, entrei, e vi-a com lágrimas nos olhos, sentada na cama, a folhear um livro da escola. Perguntei-lhe o que se passava e ela gritou. Disse-me para me ir embora. Não soube sequer o que dizer, nem como a confortar. É uma cultura diferente, uma infância diferente e complicada, e até à data sempre foi muito difícil ajudá-los em situações menos agradáveis, visto estarem todos habituados a erguerem-se pelo próprio pé, não aceitarem ajuda de ninguém nem que o rasto de sangue e lágrimas se prolongasse durante o tempo. Lamento isso, não ter estado preparado para lidar com uma situação assim. Só me restou dizer e fazer o que qualquer humano faria. Quando já me estava a afastar do orfanato, de mota, consegui vê-la por fora do muro, a olhar. Senti-me dentro de um filme. Senti que nunca mais iria ver a minha irmã mais nova.

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